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A invenção do método científico

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Silmar Gonzaga Molica*Isabelle Meunier*



Muito se tem escrito e discutido sobre a que pode ser considerada a maior invenção humana, ao longo da curta caminhada da civilização. Embora sejam candidatas todas as invenções que estimularam ou divulgaram outras invenções, como a imprensa (vencedora das indicações no livro As Maiores Invenções dos Últimos 2000 anos, organizado por John Brokman, Editora Objetiva), o título da maior invenção deve caber aquela que permitiu todas as outras, aquela que, mesmo simples, orientou e estimulou a inventividade, a indagação, a interpretação da natureza, gerando as grandes descobertas da humanidade. Antes da imprensa havia letras. Antes da eletrônica, as descobertas da eletricidade e da mecânica, e assim por diante. Tudo que se conhece não foi feito isoladamente, mas com base no conhecimento adquirido de inúmeras contribuições prévias, até mesmo anônimas e esquecidas pela história.Para apontar a maior de todas as invenções, devemos analisar como o conhecimento científico se originou e quando ele mais de desenvolveu. Nas épocas remotas, a ciência, comprovável e reproduzível, teve crescimento notadamente errático, contando com atuação de sábios multidiciplinares, gênios da espécie, clérigos solitários e curiosos, nobres insatisfeitos com as dimensões do mundo que lhes eram dadas a conhecer. O conhecimento foi inúmeras vezes conquistado e destruído por força das guerras; raramente foi acumulado ou disseminado. Em épocas menos remotas, o conhecimento científico passou a ser desenvolvido mais sistematicamente e a ser compartilhado, o que permitiu a multiplicação das academias, universidades, especialidades acadêmicas e, mais recentemente, modernos laboratórios científicos industriais. Podemos identificar qual das invenções participou de todo esse processo: o fruto do engenho humano que proporcionou isso foi o método científico, o hábito de estudo e investigação sistemática, sob paz ou guerra, em função do mesmo objetivo de construção do conhecimento. Isto significa que uma massa crítica cada vez maior de pessoas, em conjunto ou isoladamente, pode identificar problemas, definir objetivos, enunciar hipóteses, realizar ensaios, comparar resultados e chegar a conclusões, gerando acúmulo de saber, desde que os resultados sejam reunidos em bibliotecas ou em fontes de consultas disponíveis a outras pessoas, de forma ordenada e estimulada pela demanda de conhecimento. Esta foi a invenção que melhor explorou o maior talento humano: a capacidade de uso da razão.O mais certo, portanto, é que a maior invenção não pode ser atribuída a um único autor, já que o método científico foi desenvolvido a partir de muitas contribuições. A verdade é que hoje a tecnologia não precisa ser conquistada em guerras nem está apenas acessível a um pequeno número de iniciados. Ciência e tecnologia podem ser desenvolvidas por pessoas comuns, afeitas ao método científico. Ou ainda compradas a um bom preço, podendo o comprador tornar-se refém do produto que não conhece inteiramente.Por outro lado, é preciso ressaltar o papel das instituições que aplicam e disseminam o método científico. Há muito tempo as universidades têm tido um papel fundamental no desenvolvimento e na transmissão dos fundamentos essenciais para a realização de pesquisas científicas. Hoje, com o conhecimento científico cada vez mais consumindo e gerando capital, várias outras instituições e empresas assumiram, como competidoras, também o papel de produtoras de ciência e tecnologia.Esta situação nos dá oportunidade para uma reflexão sobre o papel da universidade. Com seus métodos e recursos historicamente limitados (mesmo realizando parcerias e captando recursos de diferentes fontes), parece exagerado cultivar-se expectativas de que dela se obterá a satisfação de todos os anseios do desenvolvimento tecnológico. Mais do que tentar realizar o que pode muito bem ser feito por outros, cabe à universidade fazer o que pode e deve fazer muito bem: formar pesquisadores e profissionais capacitados para buscar e implementar inovações. Mais do que produzir e competir no mercado tecnológico, cabe a universidade ensinar a todos os meios de saber; ensinar a pescar e não vender peixe barato no mercado.Assim, mesmos as pesquisas mais simples ou aquelas que não emanam das ilhas de excelência, têm um papel fundamental no ambiente universitário. Têm a função de permitir a formação de novos pesquisadores e transmitir, para todas as gerações, a beleza e a grandeza da (re)invenção do conhecimento.

* Professores do Departamento de Ciência Florestal- Universidade Federal Rural de Pernambuco



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