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20% das árvores tombadas do Recife estão na mesma via

Data: 
segunda-feira, 4 Abril 2016 - 14h00
Português, Brasil

FONTE: FOLHA DE PERNAMBUCO

Na época, ainda havia outra mangueira, hoje erradicada

Paulo Trigueiro
Alfeu Tavares/Arquivo Folha

Uma em cada cinco árvores tombadas pela Prefeitura do Recife estão numa mesma rua, sem saída e com apenas 150 metros. Entre os bairros de Casa Amarela e Parnamirim, a rua Astronauta Neil Armstrong tem sete mangueiras, duas jaqueiras e um sapotizeiro protegidos pelo poder municipal desde agosto de 1979. Na época, ainda havia outra mangueira, hoje erradicada.

Foi a primeira vez que o processo  ocorreu na cidade. De acordo com o presidente da URB naquele ano, Paulo  Roberto Barros e Silva, a atitude deveria servir de exemplo à comunidade.

“As derrubadas eram muito comuns na época. Víamos os troncos cortados em todo lugar, aquilo já era uma preocupação. A rua Astronauta, sendo singular, diferente de todo o Recife pela exuberância das árvores, mostraria a importância de preserválas”, contou o urbanista.

“A memória não permite dizer como era feita a manutenção, mas foi muito válida a proteção legal que as deixou em pé.” 

Filha de Gustavo Krause, que era o prefeito da Cidade em 1979, a deputada estadual Priscila Krause tinha apenas um ano quando as árvores foram tombadas, mas durante toda a infância teve uma relação importante com elas. “Morei na rua Estrela, transversal à Neil Armstrong, e era lá onde eu brincava e jogávamos queimado. Ali tinha muito espaço, era São dez plantas, sendo a maioria delas mangueiras muito tranquilo”, lembrou.

Edmilson trabalha na área há 23 anos: “Precisa manter”

“É uma pena a falta de manutenção das árvores no Recife hoje, não só das tombadas. Os ventos fortes são motivo de medo para quem mora perto delas.” No temporal do último 29 de janeiro, 173 árvores foram derrubadas no Recife. Naquela noite, a mangueira em frente ao prédio Pindorama balançou. “A parte de trás dela está oca”, mostrou o zelador do prédio, Edmilson Rodrigues. 

Quando começou a trabalhar no local, há 23 anos, havia apenas dois prédios na rua. Ao longo das últimas duas décadas, as casas foram sendo absorvidas pelo mercado imobiliário O metro quadrado ali só é o segundo mais, perdendo apenas para Boa Viagem, de acordo com dados da Fiepe do ano passado. 

Morador do quarto andar de um dos edifícios, Nivaldo Carlos e Silva, 71, sabe aproveitar o valor da residência. Para ele, é como se o apartamento estivesse situado em uma chácara. As folhas chegam perto das janelas, tão altas são as árvores tombadas. Algumas chegam perto do décimo andar de um edifício. “Moro nesta rua desde 1999 e a considero a mais bonita do Recife. Essa vegetação faz toda a diferença.” 

A importância de fazer manutenção

Das 54 árvores já tombadas, quatro já não existem mais. E é justamente o monitoramento sistemático que pode manter vivas as árvores, de acordo com a professora de engenharia florestal da UFRPE, Isabelle Meunier.

“As árvores são avantajadas e se destacam por serem antigas. Precisam ser verificadas no mínimo duas vezes por ano, sendo uma antes do inverno. Há técnicas simples de arboricultura que podem ajudá-las, como a remoção de galhos. Mas o mais importante é identificar cedo problemas como rachaduras e infestação de insetos”, explicou.

“Acredito que há um problema de diálogo entre o órgão que escolhe as árvores (Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade) e a que faz a manutenção (Emlurb). Não temos um estudo de doenças, por exemplo. Pelo estado em que elas (e as outras) estão, vê-se que não está dando certo”, avaliou, acrescentando que “se há um documento legal explicando que as tombadas justamente precisam de mais cuidado que as outras”. 

De certa forma, o tombamento torna mais difícil a manutenção. Isso porque, de acordo com a Emlurb, os serviços só podem ser realizados com autorização da Semas.