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Pacientes de hospital cultivam uma vida nova

Data: 
sábado, 8 Outubro 2016 - 10h00
Português, Brasil
FONTE: DIARIO DE PERNAMBUCO
No Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, em Itamaracá, horta comunitária melhorou comunicação e integração dos internos

Marcionila Teixeira

A terra do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP), na Ilha de Itamaracá, tem lançado cores no ambiente cinza onde sobrevivem, sob efeito de medicação controlada, 470 homens e mulheres - 50% autores de homicídios intrafamiliares e os outros 50% abandonados pelos parentes. O acontecimento feliz tem relação com o cultivo de duas hortas. Parece simplória a ideia, mas os cuidados com o preparo do solo, o plantio e a colheita têm transformado, mesmo que um pouco, a vida de pacientes comprometidos mentalmente.

Silva (nome fictício), 46 anos, esquizofrênico, anda cantando pelos corredores do HCTP, onde está há um ano e sete meses após ter matado o próprio irmão. “Ele não participava da escola estadual do hospital, a Ruy do Rego Barros, estava desanimado, sentado pelos cantos. Agora, está até cantando”, disse o professor de biologia da escola, Fernando Claudino de Oliveira. A horta surgiu como uma oficina ofertada pela escola. “Alguns deles têm um nível de retardamento que impede a apreensão do conhecimento na escola e muitos não querem ir às aulas. Então, decidimos ofertar essa iniciativa de trabalhar com a terra, ter contato com o sol e com o ar”, explica a diretora do HCTP, Reviane Bernardes.

A transformação dos pacientes se dá pela socialização, principal objetivo do cultivo da horta. Algo como um tratamento terapêutico. A diretora do HCTP diz que os pacientes não se comunicam entre eles. “No dia a dia, mesmo juntos e falando, não existe resposta, diálogo. Quando trabalham na horta, aprendem a se comunicar. É possível um diálogo, desde que haja alguém orientando, como acontece aqui. Sem socializar, eles se isolam cada vez mais. Lá fora, não vão conseguir socializar nem com a família”, explica.

Na unidade, a horta ganha ainda mais valor porque o espaço reúne muitas pessoas oriundas do interior que, antes de encerradas ali, trabalhavam com agricultura. “Eu gosto de trabalhar na terra. Tenho muita força física”, gaba-se Santos (nome fictício), 38, nascido em Caruaru e internado no HCTP por acusação de estupro. O aprendizado no solo, diz, pretende levar para um sítio próprio, logo que deixar a unidade.

Ao todo, 30 pacientes estão inscritos para trabalhar nas duas hortas. Cerca de 15 participam de fato. Por dia, há dois fixos para que a cor verde não ceda nunca e dê espaço à solidão e ao ócio. “Quando cheguei aqui, há um ano e nove meses, encontrei muitos homens e mulheres encerrados nas celas, sem usarem o refeitório, sem banho de sol e impregnados com medicamentos, como zumbis”, lembra a diretora. O cenário não mudou por completo, mas o caminho tem sido trilhado com pequenas ações, como o plantio da horta. No último São João, a colheita de milho foi usada para comidas típicas. Do solo também foram retirados 15 carros de mão de macaxeira.

Da terra brotam alface, melancia, milho, cheiro verde, batata doce, quiabo e macaxeira. Os produtos são usados para o preparo de alimentos dentro da unidade. Participam da iniciativa funcionários da escola do HCTP, alunos da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), além do corpo técnico da unidade. O Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) está fazendo uma análise do solo para ver a possibilidade do plantio de outros alimentos. O professor Fernando lembra que o projeto da horta precisa de apoio, como doações de sementes. Outra novidade é a identificação de um local para criação de peixes, codornas e galinhas dentro do HCTP.