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Relação com rios norteia civilizações

Data: 
segunda-feira, 21 Março 2016 - 10h45
Português, Brasil

FONTE: FOLHA DE PERNAMBUCO

No Egito e na Mesopotâmia, as sociedades eram conhecidas como hidráulicas pela dependência. O Mundo avançou, a conexão persiste


Paulo Trigueiro e Priscilla Costa, da Folha de Pernambuco
Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
A dependência do homem em relação à água é vista desde as antigas civilizações, quando já viviam às margens dos rios. Amanhã, Dia Mundial da Água, a série vai abordar como seria o Mundo sem ela. No primeiro dia, a Folha mostrou o desperdício e como evitá-lo

Há uma relação direta entre a água e o surgimento das primeiras civilizações. Os historiadores, inclusive, conhecem o Egito antigo e a Mesopotâmia como sociedades “hidráulicas”. Não só pela dependência que tinham dos rios Nilo, Tigre e Eufrates, mas também pelo nível de controle atingido.

E a conexão existia em vários níveis, de acordo com o historiador Rodrigo Bione. “Quando o Nilo secava, deixava um limo que permitia a agricultura, por exemplo. Eles controlavam essa agenda e plantavam na ‘terra negra’, fértil em relação à vermelha, do deserto”, conta. O transporte era outra necessidade das sociedades mais primitivas que os rios facilitavam. Pernambuco, por exemplo, foi se interiorizando ao longo dos rios porque eles serviam como força de tração para levar a produção dos engenhos até o Porto no Recife.

Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco

Bione lembra ainda que, não coincidentemente, as duas cidades mais antigas de Pernambuco têm rios escoando no mar. Igarassu e Olinda, ambas têm 481 anos e pontos de encontro entre águas doce e salgada. Do bairro do Varadouro, em Olinda, saía a água que as pessoas bebiam. “O rio era muito importante para a alimentação também aqui. Os peixes e os mariscos eram essenciais para os colonos”, detalha o historiador Flávio Cabral.

SUBSISTÊNCIA - Com o avanço da tecnologia, cidades podem ser erguidas nos mais áridos desertos. Alimentos e água podem ser aprovisionados, praticamente, em qualquer lugar. Apesar disso, ainda existem pessoas que tiram a subsistência dos rios, como no início das civilizações. O pedreiro Alexandre Nascimento, 35, está desempregado e sobrevive do Rio Goitá, em Paudalho. “Ontem (quarta-feira) pesquei camarões e cinco peixes. Eles variam entre 1,5 kg e 2,5 kg. Foi suficiente para quase dois dias, porque são quatro pessoas comendo nas três refeições do dia. Já hoje, pesquei apenas dois.”

Na fronteira da Região Metropolitana do Recife, entre Paudalho e São Lourenço da Mata, Josafá dos Santos, 25, abastece a própria casa com água da chuva, na falta do sistema de abastecimento moderno que as zonas urbanas conhecem.

Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco

A casa dele tem água pluvial encanada. Uma calha capta toda a chuva que cai no telhado e direciona para um tonel. Uma bomba leva o conteúdo do recipiente para a caixa d’água. “Essa é uma realidade diferente das que meus vizinhos conhecem. Eles têm que buscar a água salobra que vem do rio.”

O crescimento populacional acelerado aumenta a demanda por água e o saneamento básico não acompanha o desenvolvimento nas áreas urbanas. Assim, grande parte dos esgotos domésticos são despejados nos rios. Por isso, são cada vez menos capazes de prover subsistência.

A grande quantidade de lixo jogada diariamente nos corpos d’água piora o ciclo e compromete a vida aquática.

Antes abundantes no rio Capibaribe, espécies como tainha, camurim, carapeba e xaréu já não são mais fáceis de serem encontradas. “Se a ‘maré está para peixe’, chego a pegar uns 10 kg. Antes, pescava até 80 kg”, desabafa Edvan dos Santos, 53 anos. O mesmo sentimento é compartilhado pelo pescador Ricardo dos Santos, 34. “Muitas vezes pesquei lixo. E o esgoto só tem afugentado os peixes”, lamenta.

O esgoto doméstico em excesso provoca a proliferação das algas baronesas. “O enriquecimento de fósforo e nitrogênio, presentes nos esgotos e fertilizantes, favorece o aparecimento das algas. Elas consomem o oxigênio dissolvido na água compartilhado com os peixes”, explica o especialista em Recurso Hídricos pela UFRPE, Enio Farias.

Uma moradia muito valorizada

Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco

Santiago, 54, aprecia a vista que tem do manancial na casa onde trabalha

Valorizados, os endereços próximos ao mar ou rio têm sido cada vez mais procurados pela melhoria que promovem à qualidade de vida nas grandes cidades. Uma das vantagens é que não há impedimentos para o curso dos ventos.

"Onde há água é natural ter algum tipo de vegetação. Esses dois fatores aliados equilibram a temperatura. A depender de onde o endereço está inserido, ela chega a baixar em até três graus”, aponta o doutor em Conforto do Ambiente pela UFPE, Ruskin de Freitas. As vantagens apontadas contribuem para uma maior valorização no setor imobiliário.

A arquiteta e urbanista Rebecca Martins reforça outros benefícios. “Você tem uma vista natural e até convive com uma fauna típica da vegetação que margeia o rio”, diz. O caseiro Marcos Santiago, 54, vive de perto essa rotina há mais de 15. Os fundos da casa em que mora, voltados para o rio Capibaribe, contrastam com as buzinas dos carros na avenida Rui Barbosa, endereço oficial da residência. É junto às águas tranquilas do rio que Santiago descansa do serviço. “De todos os cantos da casa, esse é o melhor. Diante de um rio desses, você até esquece dos problemas. É você e o rio, nada mais”.