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Forte do Picão: a resistência da capitania destruída em nome do “progresso”

Esta é uma série de três matérias sobre um período da história de Pernambuco, no qual um dos marcos da cidade existiu e o contexto histórico da época. Os links para as outras duas partes estão disponíveis no final deste texto.

Construído por volta do século XVII na entrada do Porto do Recife, o Forte do Picão foi destruído no início do sec. XX para dar lugar as obras de modernização


Farol e Forte do Picão, com a bandeira do Império do Brasil. “Entrada do Porto do Recife”, Pernambuco, quadro de William Lloyd, aquarela, 1850 (circa). Coleção pessoal de Jacques Ribemboim.

Ícone dos brasões do Estado de Pernambuco e da cidade do Recife, presença confirmada no primeiro mapa pernambucano, na primeira fotografia e cartões postais da Capital e no primeiro filme gravado em terras pernambucanas, o Forte de São Francisco, ou do Picão, foi apagado da paisagem e esquecido pela tradição.

Por quase quatro séculos, a primeira paisagem avistada pelos que chegavam em Pernambuco era dele, do litoral, o Forte do Picão se destacava no horizonte, o primeiro Marco Zero do Recife e maior ponto de referência, servia de baliza e proteção na entrada do porto.

Desde o começo da ocupação portuguesa, os reinos perceberam a urgência de levantarem sistemas defensivos capazes de suportar as incursões marítimas de navios estrangeiros, piratas e corsários que tentavam saquear e destruir os povoados de Pernambuco.

Centro de grandes riquezas naturais, como o pau-brasil e o açúcar, responsáveis por boa parte da economia da época, Recife se via sob constantes ameaças. Como solução, as construções dos Fortes de São Francisco (Picão) e São Jorge, fechando o acesso para o Porto, foram decisivas no delineamento desse sistema defensivo compatível com os padrões da moderna engenharia militar do final do sec. XVI.

Mas, a história da construção do Forte do Picão é rodeada de controvérsias, desde o formato e aspecto físico de sua estrutura, até o ano de construção e financiamento. Alguns escritores indicam o ano de 1608, outros o de 1614. O autor Pereira da Costa alega que de acordo com o “Livro que dá razões ao Estado do Brasil”, o forte fora iniciado em 1612, às custas dos moradores locais e do senhor de terras, Duarte de Albuquerque Coelho (o mesmo que nomeia a ponte Duarte Coelho, no centro do Recife). Por outro lado, Pereira também apresenta uma segunda possibilidade, a de que o forte teria iniciado anos antes, no governo do terceiro donatário, Jorge de Albuquerque Coelho (1578 – 1602), logo após a conclusão do Forte de São José, no istmo do Recife.

Diferente desse autor, José Luís Mota Menezes e Maria do Rosário Rosa Rodrigues, apresentam uma lista de fortes brasileiros do sec. XVI e seus anos de construção. Nela, o Forte do Picão é datado de 1591, seis anos antes da conclusão do Forte de São Jorge, no continente, por ordem do governador-geral da Bahia, Diogo Menezes e Sequeira. Sendo assim, o Picão teria sido o primeiro forte em terras pernambucanas e o 11° em terras brasileiras.

O pesquisador da UFRPE e escritor do livro ‘Um forte sobre as águas’, Jacques Ribemboim, explica que a incerteza das datas se dá pelo fato de que o forte estava presente em documentos de diferentes épocas, como o 1° mapa da Capitania, datado de 1578. “Existem muitas versões sobre a construção do forte, a primeira é que ele já havia sido planejado por isso é visto em alguns documentos da época, outra é que o forte já havia sido construído, de forma mais rudimentar, em madeira e por fim, a versão oficial que data de 1614, com a sua finalização em pedra”, explica Jacques.

Mesmo com todas as divergências, o Forte de São Francisco, foi sinônimo de defesa e como afirmam João Braga e Carlos Bezerra Cavalcanti no livro “O Recife e seus Bairros”, representou fortemente o papel decisivo na resistência da capitania contra a armada flamenga, em 1630, “combatendo bravamente os holandeses”. 

O Forte do Picão, que junto ao Farol do Recife, “cercavam” o Porto Recifense, veio à baixo em 1910, para dar passagem aos vagões que levavam pedras para as obras de prolongamento dos trilhos de trem.

Em nome do progresso, o forte do Picão foi abandonado e sua importância foi –e ainda é- negada, como afirma o autor Hermes Vandereli no livro ‘O Farol do Picão’.

 “Mas um dia –não sei porque- arrancaram a luz bonita do farol, que era um símbolo identificado com o Recife, e lhe deram por substituto um triste vagalume, insípido e sem vida. Hoje, o velho farol e o Forte do Picão são dois túmulos encravados nos arrecifes, somente o mar não os abandonou e embala-os com a mesma canção, como nos primeiros dias em que a mão do homem os ergueu ali”

 

Parte 2
Parte 3